Rubens Gerchman (1942-2008) transitou por diversas áreas das artes plásticas. Multifacetado, influenciou artistas brasileiros da música e do cinema. Foi ele quem criou a capa do disco Panis et circensis – ícone do movimento Tropicália, além do pôster do filme Copacabana, me engana, de Antônio Carlos Fontoura,  ambos de 1968, para mencionar alguns trabalhos do artista.

Vanguardista, moderno, concreto e engajado em questões sociais, culturais e polícias, Gerchman foi um pintor anti-romântico por excelência, como descreve Fábio Magalhães em volume dedicado à obra do artista  na coleção Arte de Bolso (Ed. Lazuli), agora disponível em e-book. No livro, o autor reúne entrevista, ilustrações e uma cronologia da obra do artista.

Autor de uma pintura “sensual, luminosa, ensolarada e densamente povoada”, Gerchman analisou de modo crítico os conflitos sociais e procurou, ao mesmo tempo, representá-los de maneira solidária, envolvendo-se nos dramas que representa em sua obra, e nunca como alguém que comenta os conflitos à distância, de uma confortável plateia.

CONFIRA UM TRECHO DO LIVRO:

É uma metáfora rica na sociedade de massa, não?

Ter de se identificar por um número e ao mesmo tempo se perder no meio da sociedade de massas à procura de sua identidade. Você tocou em um ponto muito importante. Como falei antes, eu trabalhava muito em preto e branco e usava também materiais em tom de terra, e pintava multidões. Eu ficava impressionado quando entrava no Maracanã e via aquela massa maravilhosa, não dava para saber quem era quem, só reconhecia as cores e, quando era gol, tudo vibrava! Eu sentava na torcida do Flamengo porque lá todos se levantavam produzindo ondas humanas. Essa coisa de desenhar o anônimo sempre me interessou, o ser humano perdido no meio da rua. Comecei a colocar placas onde se lia “Proibido virar à direita” ou “Trânsito impedido”, era nossa facção de estudantes, de contestadores. Todos esses sinais da cidade – faixas, zebras e formas geométricas – eu incorporei ao desenho de uma forma um pouco expressionista, e em preto e branco, vindo da litografia e da xilogravura.

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