Pintora, gravadora, escultora, Tomie Ohtake (Kyoto, Japão, 1913 – São Paulo, Brasil, 2015) chegou ao Brasil em 1936, fixando-se em São Paulo. Em 1952, começou a pintar com o artista Keisuke Sugano para, no ano seguinte, integrar o Grupo Seibi, do qual participavam Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, Flavio-Shiró e Tadashi Kaminagai. Este e outros episódios da carreira da artista ganham formato e-book pela coleção Arte de Bolso.

Escrita pelo jornalista e crítico de arte Miguel de Almeida, essa é primeira publicação em que Tomie Ohtake comentou, em entrevista ao autor, aspectos centrais de sua criação, como seu processo de trabalho, sua conquista por uma linguagem digital e sua convivência com a cultura brasileira.

CONFIRA UM TRECHO DO LIVRO:

O trabalho de Tomie Ohtake é um dos grandes exemplos de modernidade inovadora dentro da arte brasileira. Japonesa de nascimento, ela chega ao Brasil no momento em que os petardos da turma de 1922, se por um lado, são absorvidos pela dinâmica da sociedade cultural, por outro, sofrem intenso bombardeio de forças internas ao próprio movimento. Como se sabe, nosso país é chegado a um namoro com o atraso e o reacionário; a coisa se agrava quando a isso se soma um nacionalismo de cepa caipira como temor às inovações e às novas ideias.

E as reações seguem um padrão. Em 1917, a pintora Anita Malfatti tem sua exposição de inspiração modernista desmontada por Monteiro Lobato. Numa crítica hoje célebre, o escritor se mostrava horrorizado com as inovações propostas por aquela estética inovadora. Alguns estudiosos contemporâneos, no entanto, observam que Lobato vocalizava uma reação da sociedade tradicional à miscigenação então em andamento. Em particular, contra o registro do que se escondia atrás da tela “O homem amarelo” (um japonês amorenado em terras brasileiras). Lembremos que a própria Anita era filha de imigrantes italianos aportados em São Paulo.