Quem lê em silêncio em casa, no ônibus ou no metrô, seja no papel ou no smartphone, talvez não imagine que o caráter em geral introspectivo, solitário e “mudo” que a leitura assume hoje causaria grande espanto em cidadãos letrados de séculos passados.  Em uma passagem da obra “Confissões” – escrita por volta do ano 398 no século 4 – o filósofo e teólogo Santo Agostinho relata com surpresa uma visita ao amigo Santo Ambrósio, na qual o encontrou lendo sem produzir nenhum som. “Quando ele lia, seus olhos perscrutavam a página e seu coração buscava o sentido, mas sua voz ficava em silêncio e sua língua era quieta”, escreveu.

Mesmo depois quando, a partir do século 18, a leitura silenciosa se disseminou, ler em voz alta era uma forma de sociabilidade comum, segundo um ensaio escrito pela professora Márcia Abreu, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Lia-se em voz alta nos salões, nas sociedades literárias, em casa, nos saraus e nos cafés. Um salto da Antiguidade ao século 19 Na Antiguidade, há registros de que os gregos liam em voz alta. Os monges da Idade Média também. Segundo escreveu o historiador americano Robert Darnton em “A História da Leitura”, para as pessoas comuns da Europa dos anos 1700, a leitura ainda era uma atividade social, quase sempre oral mas não necessariamente edificante.

A ideia de que ler leva à introspecção e a um aprimoramento do indivíduo é uma construção mais recente. A partir do século 17 e, com mais intensidade, no século 18, porém, os hábitos de leitura começaram a se transformar na Europa. Especialistas em história da leitura apontam algumas razões para a transição. De um lado, a invenção do tipo móvel, por Johannes Gutenberg (1398-1468), revolucionou as técnicas de impressão e possibilitou um aumento da produção de materiais de leitura diversos e mais acessíveis.

Os livros, antes de Gutenberg, eram objetos restritos praticamente às ordens religiosas. Já os jornais e outros periódicos sequer existiam. “Esse processo de transição de uma leitura oralizada para uma leitura silenciosa é correlato a uma outra transformação na história da leitura, de uma leitura intensiva para uma leitura extensiva, sobre a qual quem fala muito é o [historiador francês] Roger Chartier”, disse Thiago Mio Salla, professor do curso de editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP, ao Nexo.

“Isso significa passar de um contexto em que se tem pouco material impresso, em que as pessoas tinham uma biblioteca diminuta mas que era lida sistematicamente, para, a partir do século 18 e sobretudo 19, uma leitura extensiva: há mais material impresso e por isso uma leitura mais ampla, mais diversificada.” Houve também um crescimento do número de alfabetizados na Europa, na época da Revolução Industrial, entre os séculos 18 e 19. Houve o surgimento de gêneros, como os romances, voltados para o lazer.

E mudanças no design do próprio texto: o espaçamento entre as palavras e a pontuação, indicações para o leitor, passam a existir. “Imagino que, a partir do aburguesamento da sociedade ocidental, fortaleceu-se a tendência à individualização”, disse Marisa Lajolo, professora das universidades Mackenzie e Unicamp, em entrevista ao Nexo. “Talvez se possa estabelecer correspondência entre a individualização da leitura e o (simulado) derramamento confessional do Romantismo.” (…)

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