De Hilda Hilst já se disse que era temperamental. Completamente avessa a refreamentos ou moderações, vivia apetites e paixões sem reservas. Não é necessário mais que um contato breve com sua obra para que se perceba isso. Poetisa, dramaturga, romancista, escreveu incansavelmente sobre amor, morte, loucura, transcendência e sexo. Em vida, foi tachada de autora difícil, hermética. Enxergava os comentários sobre esse suposto hermetismo, contudo, como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher – não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. Colocou a literatura na frente de tudo, não constituiu família, viveu mil amores.

Nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, morreu também no interior, em Campinas, em 2004. Nos últimos 13 anos – como prova irônica de que estava certa quando disse que “parece que os críticos adoram escritor morto, você tem que morrer para ser lembrado” –, começou a ganhar destaque contínuo. Agora, será a homenageada do maior festival de literatura do Brasil, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontecerá entre 25 e 29 de julho de 2018. A curadora do evento, Josélia Aguiar, vê, apesar de todas as diferenças evidentes – ele um cronista do social, ela mais existencial –, pontos de contato entre Hilst e o homenageado da última edição da Flip, o escritor carioca Lima Barreto.

Para além do fato de que ambos tiveram reconhecimento limitado em vida – Hilst ironizava dizendo que seus leitores faziam parte de uma organização secreta, como a KGB –, há o fato dos dois terem se entregado completamente à escrita. “O Lima Barreto costumava dizer que ou a literatura o matava ou lhe dava o que ele pedia. A frase serve também para a Hilda”, comenta Aguiar. Além disso, são figuras transgressoras. “Lima, um homem negro, intelectual e com ideias politicamente fora de seu tempo. Hilda, uma mulher livre, que viveu e escreveu como quis”, complementa a curadora.

De sobrenome quatrocentão, Hilda de Almeida Prado Hilst lançou seu primeiro livro de poesias, Presságio, aos 20 anos. Aos 22, formou-se em Direito no Largo São Francisco. Em uma reportagem do jornalista Humberto Werneck, publicada no Jornal do Brasil, em 1990, a escritora Lygia Fagundes Telles descreve assim Hilst, sua amiga mais íntima: “um tipo magrinho, esgalgado, parecendo uma folha de avenca, que chamava a atenção e escandalizava São Paulo, e não apenas por fumar de piteira e esbanjar palavrões”, mas também por ser emancipada e tomar à frente quando o assunto era conquistas amorosas – tudo o que uma moça da sociedade não fazia.

Menos pelo seu comportamento e mais pelo que escrevia, contudo, foi que encontrou dificuldades. “Se Hilda fosse homem já a teriam saudado como um de nossos escritores mais criativos”, dizia a escritora e amiga Heloneida Studart. Some-se a isso o fato de que a temática de seus textos não era usual e o estereótipo de “escritora difícil” está pronto. “Suas influências são interessantes, tem profundo contato com Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke e Saint-John Perse, mas no Brasil encontra pouco paralelo. É algo mais parecido com Cecília Meirelles, que adorava seu trabalho, mas muito diferente de João Cabral de Mello Neto, por exemplo”, diz a curadora da Flip.

Aos sete anos, descobriu que o pai, um fazendeiro com pendores poéticos, era esquizofrênico. A doença paterna perseguiu Hilst e sua escrita. “Sempre me pergunto por que Freud privilegiou Édipo e não Mirra, a incestuosa, que embriagou o pai e engravidou dele, parindo Adônis. Sempre procurei meu pai. Sempre quis ter alguma semelhança com ele”, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1989. A relação (ou falta de, já que nunca conviveu com o pai são) também era uma constante em sua literatura, assim como o papel que deveria ocupar na sociedade. “Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha”, escreveu em 1959, no livro Roteiro do Silêncio.

A Obscena Senhora Silêncio, documentário dirigido por Leandra Lambert e Alexandre Gwaz, no final da vida da escritora, em sua casa em Campinas.

Sua devoção à escrita era total – “a única coisa que não é permitida na literatura é mentir”, disse em mais de uma ocasião –, sua produção febril. São 28 livros. E ainda há coisa inédita. Prova disso é que em 1966, com pouco mais de 30 anos, abandonou o círculo social e cultural de São Paulo e se mudou para a Casa do Sol, sua chácara em Campinas, onde viveu até o fim da vida e onde hoje está todo seu acervo. “O espaço foi desenhado todo como se fosse um convento, com a única intenção de estimular a literatura e a escrita”, diz Aguiar. Lá, Hilst, às vezes com mais de uma dezena de cachorros, levou uma vida afastada dos círculos literários da capital paulista, mas permaneceu de portas abertas para receber amigos e aspirantes a escritores.

(Fonte: Texto de André de Oliveira para o El País – Brasil)