Poeta, biógrafo, tradutor, jornalista, memorialista, dramaturgo, ensaísta e um dos fundadores do neoconcretismo, Ferreira Gullar, que faleceu aos 86 anos em dezembro do ano passado, teve uma atuação marcante também como crítico de arte. É esta faceta que os leitores poderão encontrar no livro Arte Contemporânea Brasileira, publicado pela Lazuli Editora em 2012 e agora lançado pela primeira vez em e-book.

Leia aqui um trecho do livro

img16Um dos mais argutos observadores e ensaístas da cena cultural, autor do manifesto Arte Neo Concreta, que dá régua e compasso a nomes como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape, ao retornar ao Brasil em 1977, após sete anos de clandestinidade e exílio, Gullar voltou a registrar em textos curtos o que de mais significativo se produzia no período.

Era uma época de embates ferozes entre a censura do regime militar, a denúncia da falta de liberdades civis e a necessidade de uma produção aguerrida ao mesmo tempo inovadora e criativa, sem resvalar no panfletário. Anos de vigor e de renovação estética, da construção de uma linguagem sintonizada às tendências mundiais, apresentados por uma escrita precisa, informada – características da intervenção intelectual de Ferreira Gullar.

Sobre o autor

Ferreira Gullar dedicou-se à poesia a partir de 1943, tendo publicado seu primeiro livro de poesia Um pouco acima do chão, em 1949. Com a assinatura do Ato Institucional no 5, foi preso e em 1971 decidiu partir para o exílio, morando primeiro em Moscou e depois em Santiago, Lima e Buenos Aires. Durante esse período, colaborou com o semanário O Pasquim, sob o pseudônimo de Frederico Marques.

Como pleno reconhecimento a sua carreira recebeu diversos prêmios e homenagens: em 1966 uma parceria com Oduvaldo Vianna Filho ganhou o Molière, o Saci e outros prêmios, escrevendo a peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Em 1979, Um rubi no umbigo, primeira peça que escreve individualmente, ganhou o prêmio Personalidade Literária do Ano, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1985, ganhou o Prêmio Molière pela sua tradução de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. Em 1999, lançou o livro Muitas vozes e ganhou o Prêmio Jabuti na categoria poesia. Obteve também o Prêmio Alphonsus de Guimarães, da Biblioteca Nacional. Foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras em 2014.

Leia abaixo a apresentação do livro, escrita pelo próprio Gullar na época da publicação da primeira edição, em 2012:

coverMinha atividade de crítico de arte sofreu demorada interrupção, de 1970 a 1977, período em que estive na clandestinidade e no exílio. Naturalmente, durante esse período, nem sempre pude acompanhar a atividade dos artistas plásticos brasileiros; não obstante, mantive vivo meu interesse pelas questões estéticas, não apenas aproveitando meu tempo, quando recluso, para ler e refletir sobre os problemas artísticos, como também para reavaliar minhas opiniões. Sem poder visitar as galerias e os museus, contentava-me com as reportagens e artigos sobre o que ali se expunha.

Depois, já no exterior, tendo de deslocar-me por vários países e fixar-me em alguns deles, pude acompanhar mais de perto a produção artística internacional e conhecer melhor o precioso acervo de seus museus. Nos anos finais do exílio, passados em Buenos Aires, pude acompanhar, pela leitura de jornais brasileiros que me chegavam, o que se produzia de arte no Brasil. Isso sem falar no contato direto com as obras eventualmente exibidas nas galerias portenhas.

Ao voltar para o Brasil, fui imediatamente convidado a assinar a seção de crítica de arte da revista Veja e, pouco depois, da revista Isto É. São desse período os textos reunidos neste livro. Se, pela natureza mesma dessas revistas, o espaço de que eu dispunha era pequeno, isso me obrigou, por outro lado, a falar só do essencial das obras expostas, o que emprestou um caráter particular aos textos aqui apresentados. Não se trata, portanto, da análise aprofundada de cada exposição e, sim, do registro daquilo que, a meu ver, de mais significativo era exibido por galerias e museus, naquele período.

Sem maiores pretensões, espero que a leitura destes textos contribua para a avaliação de um período muito particular da produção artística brasileira, quando a pintura, a escultura e a gravura ainda se faziam presentes na maioria das galerias e museus do país.